IMAGINAR O PRESENTE (1983)

IMAGINAR O PRESENTE (1983)
_IMAGINAR O PRESENTE
    A maneira mais simples, também a mais comum, de ignorar a arte contemporânea é perguntar o que ela significa. Ou ainda, para que serve. Essa espécie de questão pressupõe uma exterioridade, um lugar qualquer onde se possa, de fora, interrogá-la. Este lugar seria, naturalmente, uma “certeza” – o real, o mundo, a vida – e são essas falsas certezas que cabe à arte justamente recusar – o que será o agora senão uma abertura, uma premência, uma pulsação indefinida? Numa era de incertezas – sociais, existenciais, científicas – exigir da arte uma empatia em significação prontas equivale pura e simplesmente a negá-la enquanto modo de conhecimento.
      E, no entanto, em que outra esfera da nossa complexa, mas estritamente contabilizada, vida social, se poderia experimentar um pensamento e uma sensibilidade como os que movimentam a arte contemporânea? Onde mais é possível mediar a nossa intricada subjetividade e a maciça objetividade que nos oprime? E ainda: onde mais esses pólos vêem a se encontrar, precariamente que seja, senão nessa atividade que gera telas, objetos, coisas, fatos até, imediatamente enigmáticos? Com eles, através deles, neles mesmos, vivemos a nossa condição de seres da Luta de Classes e do Inconsciente. Os novos trabalhos de arte não fazem menos do que materializar, em profundidade, a crise da metafísica ocidental. Se não desejamos vagar por espaços ilusionistas pré-modernos, qual a arte que vai nos satisfazer a não ser aquela que se dispõe a incorporar a crise?
      Certamente, desde Cézanne, a arte tem algo de filosofia. E, segundo um filósofo, Merleau-Ponty, a filosofia devia sempre ter algo da arte. Assim o conhecido descompasso entre a arte moderna e o público é inevitável e, de modo algum, põe em risco a sua existência. Como se sabe, a arte moderna impôs-se, literalmente reconstruiu a nossa percepção e o nosso ambiente. O que está em xeque, ao contrário, é a situação alienada do “público”. De fato, a arte contemporânea só se deixa apreender de dentro, demanda uma conversão da nossa sensibilidade. Mas, pensando bem, essa demanda não é nada autoritária: solicita tão somente o reconhecimento e a atenção para os conturbados processos que constituem o mundo atual. A estranheza dessa arte é, afinal, a estranheza do próprio real – o que assusta nela é, exatamente, a sua extrema proximidade.
      A arte contemporânea, não há como negar, parece nos deixar sem ação e sem resposta. E precisamente aí, nesse estágio de suspensão, nesses parênteses, nessa pauta e nesse silêncio, está a sua lição. Por um momento, ficamos desarmados, não podemos consumir, nem utilizar. Tampouco somos arrebatados para algum além. O limite do juízo estético, para Kant, era o Sublime e a sua exigência final: imaginar o infinito. Essa tarefa irrealizável levava o homem a viver o grandioso dilema de sua condição metafísica – o ser que postulava o impossível. A proposta da arte contemporânea, num mundo que pretende assumir radicalmente a finitude da Razão humana e o projeto de sua História, não seria menos problemática, apenas um pouco mais urgente – a questão passa a ser imaginar o presente.

Ronaldo Brito
Texto realizado por ocasião da exposição coletiva “IMAGINAR O PRESENTE”, realizada de 8 a 25 de outubro, com trabalhos de Amílcar de Castro, Lygia Clark, José Resende, Willys de Castro, Hercules Barsotti, Marco do Valle, Tunga, Waltércio Caldas Jr., Eduardo Sued, Carlos Vergara, Piza, Sérgio Camargo e Franz Weissmann.