MAM (1982)

MAM (1982)
_TRÊS PAULISTAS NO MAM/RJ
       São três exposições individuais. No entanto, é possível pensá-las em conjunto, como um todo.
      Os três expositores têm em comum, fora a absoluta modernidade de seus trabalhos, o fato de serem paulistas. Mas isso não os aproxima, nem mesmo geograficamente: Márcia Rothstein reside atualmente no Rio e Marco do Valle permanece em Campinas, onde nasceu. E pertencem a gerações diferentes, sendo diversa, também, a formação artística de cada um.
      Marcelo Nitsche, o mais velho, cresceu, como artista, em meio à euforia criativa dos anos 60, realizando até hoje, um trabalho alegre, descontraído, saudabilíssimo. Não há fossa nem tragédia em sua obra criativa. Ao contrário, seus trabalhos são leves e participantes. Das “bolhas” às “birutas”, do “cubo da fumaça” aos seu “fragiles”, o ar tem sido sua matéria prima mais constante: brisa, vento, sopro, motores de aviões são empregados para animar (dar vida) a seus trabalhos, vocacionalmente públicos. Nitsche gosta da rua, do alegre convívio popular para sua arte: caso da “Taturana”, da Praça da Sé, das vacas de concreto, da livre criatividade, com crianças, em praça pública, onde também ergueu bandeiras e, um dia, pretende soltar pipas oriundas e diferentes regiões do país.
      Este seu modo de ser, porém, não o fez menos consciente das dificuldades que vivemos todos nós no Brasil, há quase 20 anos. Costurou, na própria mão, as cicatrizes, assim como pintou, no rosto, com cores vivas, sua inconformidade. Seus infláveis podem ser vistos, também, como objetos-metáforas de uma situação angustiante: equilíbrio instável e atmosfera irrespirável.
      Marco do Valle, o mais jovem, se fez artista nos anos 70, quando o ativismo da década anterior é substituído por uma postura mais fria, distanciada, quase hermética no plano da criação artística. O artísta dos anos 70, concentra sua atenção nas questões específicas da arte, ele discute sua lógica interna, o lugar que ocupa na sociedade. Concentração e reflexão. O trabalho de arte exige derramamento lírico ou participante, mas uma atitude frequentemente irônica e marcadamente intelectual. A arte não se dirige tanto à afetividade, mas especialmente à inteligência do espectador. Ela se coloca o tempo todo como discussão, não permitindo evasivas ou devaneios. O trabalho de Marco do Valle aqui exposto é construído por relações geométricas e operações aritméticas.
      Márcia Rothstein como que aproxima estes dois polos que são a cabeça e o coração, inteligência e sensualidade, sofisticação e entrega. Tendo realizado parte de seus estudos na Inglaterra, trouxe de lá não apenas o domínio da chamada “cozinha” da pintura, como, também, um certo refinamento que pode ser verificado na escolha das cores e tonalidades e nas transparências obtidas. Definindo sua pintura como soft-edge, quer que o encontro das cores, das diversas tonalidades, se faça sem choques, de forma macia, delicada.
      Mas não devo aplicar de forma tão rígida, aos três expositores, as categorias comportamentais aqui sugeridas para a arte dos anos 60/70 e levantadas a partir do exame de suas próprias obras. Afinal, Nitsche não é menos rigoroso na conceituação de seu trabalho do que Marco do Valle, assim como na obra deste há uma espécie de tensão irônica, que pode propiciar uma maior adesão emocional do espectador.
      Marco do Valle coloca suas esculturas bem rentes ao chão, às vezes, como em trabalhos anteriores, empregando rodinhas  para que possam rastejar ou se deslocar sobre o piso, como um caramujo carregando sua própria casa. Suas obras, portanto, são vistas do alto ou, como descreve o próprio artista: “o trabalho aqui exposto, que foi pensado em planta, ou seja, visto de cima e no centro da simetria, quando é montado no chão, faz com que mude o ponto de vista do observador que, ao olhar a peça de um dos extremos, não a vê proporcionalmente simétrica e sim deformada, em perspectiva. O olho, nos extremos, soma: no centro, se divide, subtrai, vendo cada vez uma parte simétrica da peça”.
      As telas de Márcia são vistas frontalmente, o quadro e o olhar colocados frente a frente, em linha reta. Marcelo distribui suas alegres pinceladas num ponto mais alto, acima do olho, como que desejando que elas flutuem no epaço, levitem. Marco, atado ao chão, desloca a escultura pedestal, absorvendo o entorno, que tanto pode ser o piso negro deste Museu de Arte Moderna quanto o asfalto áspero da estrada. Vista em perspectiva, sua escultura é quase um desenho. Marcelo supera o constrangimento da moldura (que cumpre no quadro a mesma função do pedestal na escultura) e libera a pincelada, que ganha estatuto de escultura. Márcia, por sua vez, integra o chassis da pintura, jogando com transparências reais e ilusórias. Valoriza o avesso do quadro, ou seja, valoriza aquilo que a história da pintura recalcou, o suporte. Marco mostra que a escultura é construída sobretudo com o vazio, o de dentro e o de fora. Ou seja, os dois ativam aquilo que o olhos costuma não ver, o suporte e o entorno, que passam a ser, em seu trabalho, parte do significado.
Enfim, os três, juntos, questionam o olhar acomodado do espectador, arrancando-o de sua passividade, educando-o para novas realidades visuais, para novos comportamentos.

Frederico Morais
Rio, Maio, 1982