Marco do Valle. Arte Xerox. Impressões-Expressões

MARCO DO VALLE. ARTE XEROX. (2018)
_”MARCO DO VALLE. ARTE XEROX. IMPRESSÕES-EXPRESSÕES”
    O Projeto Estante de Livros e Cadernos de Artista do Instituto de Artes da Unicamp apresenta um excerto da produção em xerografia do artista visual e fundador de nosso Instituto, professor Marco do Valle. Artista de expressão múltipla, Marco do Valle atuou, principalmente, no campo da Escultura, mas esta vocação não o limitou de ser um artista extremamente explorador que praticava multi expressões aqui bem percebidas nos registros intermediários e peças finalizadas que compõem a exposição desta edição da Estante. Neste conjunto, os trabalhos selecionados mostram como o artista utilizava da linguagem da impressão como comunicação.  Em seus trabalhos é possível também identificar como o artista empregava a arte-da-cópia para desenvolver suas espécies de “charadas”, tal como as define, seu amigo, artista visual,  Walter Silveira.
    Nas décadas 1970 e 80, os trabalhos realizados em Xerox –  meio popular reprodutível e multiplicável – ganha expressividade artística em todo o Brasil.  Arte Xerox, Xerocópia ou Xerografia foi o movimento que rejeitou a manipulação instrumental da tradição, alterando os procedimentos e reduzindo o fazer artístico à ação instrumentalizada pela máquina. Este importante ajuste na elaboração das imagens artísticas eleva, de modo definitivo, a cópia ao estatuto de obra de arte e se estabelece sob a polêmica irreverente daquele momento histórico e artístico.  Sob tal contexto Marco do Valle apresenta-se inserido nos principais eventos da Xerografia, ao lado de artistas como Hudinilson Jr, Paulo Bruscky, Rafael França, Wesley Duke Lee, Julio Plaza, dentre outros. 
    A exposição pretende revigorar a participação deste artista neste campo tanto quanto propõe mais uma dobra ao contexto desta linguagem artística ao apresentar, lado a lado, trabalhos finalizados, documentos, vestígios gráficos de processos que conduziram à séries inteiras de arte-xerox. Não há início, nem meio e talvez não tenha, portanto, um fim. Para além da Estante, estende-se para o painel expositivo localizado logo em frente à Estante, (originalmente criado pelos profs. Lucia Fonseca e Gilbertto Prado, em meados da década de 1980) para apresentar peças de arte correio, arte xerox e publicações marginais que eram trabalhadas e colecionadas por eles naquele período. Os cartazetes ali afixados são cópias xerox mais recentes que trazem personagens importantes da História da Arte e da Arquitetura combinados a frases nas quais, o então anônimo Marco do Valle, interventor silencioso dos corredores do IA, questionava os movimentos que eram necessários para serem pensados em período de Greve da Universidade. Se houve uma grande pergunta que acompanhou as preocupações do prof Marco, foi a questão sobre seu papel como artista-pesquisador-educador instigado pelo tipo de Escola que seria necessário fundar, manter e fazer valer no cenário sóciocultural brasileiro. Sua busca e atuação sempre foi pautada pela premissa de que esta Escola pudesser ser, de fato, o Instituto de Artes da Unicamp. 

Alguns detalhes sobre os trabalhos expostos: 
    No trabalho MORRO MORTE MONTE CÉU, foram apresentadas xerografias produzidas a partir de radiografias de sua arcada dentária. De maneira bem-humorada, Marco do Valle parece brincar com as cópias das radiografias, acrescentando colagens e letras set ao processo, o que acaba por modificar de maneira irreverente o sentido original da imagem radiografada. Finalizadas em xerox no papel dourado, este trabalho resulta cinco peças que, em depoimento, nos seus últimos dias de vida, o artista descreve como autobiográficas. Convidado pelo artista e curador Júlio Plaza, Valle apresenta este trabalho na exposição Poéticas Visuais, realizada no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP), em 1977.
    Em 1980, Marco do Valle participa da mostra XEROGRAFIA, organizada pela Pinacoteca do Estado de São Paulo com colaboração do artista León Ferrari. Uma exposição programada para acontecer de forma simultânea e itinerante, na Pinacoteca do Estado de São Paulo (SP), na Casa das Artes Plásticas “Miguel Beníce A. Dutra”, em Piracicaba (SP) e no Núcleo de Arte Contemporânea (NAC) de João Pessoa (PB), circulando posteriormente, em algumas cidades do sul do país. Unindo um canal de comunicação em massa – a televisão, e um canal de reprodução – o xerox,   Marco do Valle apresentou  um conjunto de oito peças, chamado XEROX DA TELA e o caderno   XEROX DA TV  com cenas de novela. Dando continuidade à ideia da multiplicação, Marco do Valle reproduziu o caderno em pequena escala (cerca de 40) e distribuiu para alguns amigos e colecionadores.  Alguns dos documentos apresentados aqui atestam o evento.   
Vale contar, que na mesma mostra, o poeta Walter Silveira realizou um trabalho em homenagem à Marco do Valle, intitulado 100 TÍULOS (ou c/ os pés no riacho), cujo processo de trabalho foi entregue ao amigo para finalizá-lo, acrescentando então sua fotografia. 
A xerografia O inimitável Andy Warhol trata-se da cópia colorida do disco “O Inimitável” de Roberto Carlos, lançado em 1968. A montagem é uma homenagem ao artista Andy Warhol e sua exclusiva personalidade. Este trabalho fez parte da exposição coletiva Arte Xerox Brasil, realizada pela Pinacoteca do Estado de São Paulo em 1984.

Sobre esta edição do Projeto e a organização da Exposição:
O Programa de Pós Graduação em Artes Visuais do IA Unicamp tem uma pesquisa de Mestrado em desenvolvimento, sobre a produção de Marco do Valle. O conteúdo levantado para esta mostra é parte da pesquisa desta pesquisa desenvolvida por  Julyana Matheus Troya, quem e assina comigo a organização desta edição.

profa dra Sylvia Furegatti e Julyana Matheus Troya
junho.2018