MELANCOLIAS (1992)

MELANCOLIAS (1992)
_MELANCOLIAS
      Uma coleção de ferramentas dispersas pelo chão. Em Joseph Beuys (instalação Animais Primitivos), envoltas em argila, “evocação de criaturas de um mundo antigo de animais e caçadores”, os instrumentos sugerem um mundo desumanizado e petrificado, uma natureza mineral que reincorpora gelidamente o pálido esforço pela vida orgânica. Em David Cronenberg (filme Gêmeos, Mórbida Semelhança), instrumentos cirúrgicos grotescos, forjados para incursionar na carne humana, para separar/mutilar simbolicamente a reposição aterrorizante do Mesmo, para vasculhar a insondável psique humana, “nos seus antros e cavernas sem número, repletas ao infinito”. Em ambos o atroz – para os homens – non sense da vida, o desalento por uma existência insignificante e incompreensível.
      As ferramentas e Marco do Valle, mesmo compartilhando de suas tonalidades melancólicas, são de outra ordem. Ao invés do desencanto de Beuys ou da morbidez de Cronenberg, a perplexidade e a ironia, num enlaçamento ostensivo com a cultura humana. Não mais os objetos mesmos, mas simulacros inúteis de madeira, desproporcionados à mão humana. Ladeando as não-ferramentas, compondo a semântica de um mundo peculiar, esferas metálicas, sólidos de papelão, negatoscópios radiográficos. Num destes, iluminada por trás, a gravura de Dürer, tensiona-se entre a magia hermética vitalista milenar e a animação universal da mecânica racional nascente – aliás, como a maior parte das obras renascentistas, tensão que encontra seu equilíbrio na geometria (“a proporção corresponde, por semelhança ao próprio Deus”). A sustentar essa curiosa montagem intelectual, uma fusão de dois conceitos de tempo: Tempus edax rerum (Tempo que devora tudo que cria) e Veritas filia temporis (A verdade é filha do tempo). A figura da Melancolia seria a materialização simbólica desse sentimento misto de derrocada e de compreensão superior, que vislumbra, sem nunca alcançar, uma ordem divina na natureza.
      Mas não se pode confiar integralmente em uma pista tão óbvia. O xerox da fotografia da gravura de Dürer coloca-nos diante de citações, paródias, referências, reproduções ao infinito, coisas que já não são mais elas, pois os significados simbólicos e alegóricos foram deslocados e refundidos. A Melancolia, companheira fraterna do gênio, já não acredita na ciência como caminho para a verdade, talvez já nem acredite mais na próxima verdade, mas compulsivamente continua a transpassar o mundo com seu olhar indagador e confiante. “É essa sua dimensão humana: a recusa em se retirar de cena apesar de uma história, que incessantemente amontoa ruínas sobre ruínas”.     

Abílio Guerra
“Melancolia 3” Instalação de Marco do Valle, projeto desenvolvido na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, iniciado em 1992 no Laboratório de Pesquisas Escultóricas, Departamento de Artes Plásticas, Instituto de Artes, com a participação na pesquisa e execução das peças do prof. Geraldo Archangelo. Colaboração do Museu de História Natural, Instituto de Biologia (Auro Maluf), fotógrafo Fernando de Tacca, Departamento de Multi-Meios, I.A, radiologista prof. Dr. Lívio Nane, técnicos em radiologia Roberto Baruta e Vera Lúcia dos Santos Soares (câmara escura). Dedico ao amigo escultor Gastão Manuel Henrique, que me apresentou ao sólido cristal de Melancolia I, de Albrecht Dürer.