MELANCOLIAS (1994)

MELANCOLIAS (1994)
_MELANCOLIAS
      O anjo se fecha sobre si mesmo, renuncia ao vôo. Reúne, no seu entorno, os instrumentos do saber fazer e do saber abstrato. Tristeza incurável que jaz ao fundo de todos os conhecimentos humanos, sede insatisfeita de infinito, luz, intensa talvez, mas reduzida, que brilha no negror ilimitado: quem se alça e a proclama é um morcego.
      A folha de papel congrega seres e objetos misteriosos: oferece a eles a unidade física onde possam brotar. A cumplicidade se faz também por uma coerência de relações secretas. Pouco importa que desconheçamos as razões desse ajuntamento. Sabemos que os une o enigma, o segredo.
      Derivando da Melancolia, uma idéia. Figuras e objetos inscritos sobre a página branca são agora projetados no espaço e numa escala perturbadora. A idéia se faz experiência física. Aquele universo que gravitava solidarizado pela composição gráfica e pelo silêncio do sentido expandiu-se e encontrou novas necessidades.
      Há a beleza dos objetos e dos volumes no espaço, beleza daquilo que é inacessível. Beleza do martelo que carregou-se de tamanho, transformou-se em seu próprio modo superior, inútil, mas espessamente ontológico. Beleza das relações rompidas e das unidades afirmadas. Beleza do novo invento, da fórmula que engendra um mistério renovado. Beleza seca de correspondência através do vazio.
      Ocultação e desvendamento. Um oceano riscado por faixas negras ou um cão com cabeça de carneiro. 480 anos de espessura temporal. A antiga unidade, nos seus laços visíveis ou encoberto, nos excluía. Nos podemos trazê-lo no coração, e ela talvez encarne sentimentos nossos, mas mantendo-se na sua coerência implacável, una. A nova se dispõe primeiro no falso paradoxo da dissociação. Objetos aparentemente soltos das cadeias matriciais. Mas logo se percebe uma gravitação diversa que se deixa penetrar não apenas com os olhos. Que se deixa penetrar, que se deixa atravessar, mas que não deixa incorporar. Haveria algo desdém nessa soberba frieza, se justamente nós fossemos levados em conta. É nossa humana melancolia, mas que tornou-se inacessível pela grandeza de ser em si, fora de nós.
      Uma e outra arvoram, imóveis e insensíveis, a concentração do pensamento. Se a noite é plena, se a luz é diminuta, a melancolia nasce dos seus limites. Em 1514, o conhecimento sofria da consciência de seu próprio ser. Ma, em 1994, há como que um dilúculo curiosamente imóvel, anunciando e se desdizendo. Nem sombrio, nem brilhante, nem dia, nem noite, nem presente, nem futuro ou passado. Um outro, renovado lugar, consciente e fora da consciência.
      A composição permanecera simples e grandiosa, graças à atitude e à figura principal, que atrai e retém os olhares, apesar do acúmulo dos objetos e dos símbolos que o mestre desejou criar. Agora, ela se desdobra no espaço real e inusitado, solta, sob as asas do anjo. Há um arejamento elevado, uma presença perturbadora daquilo que, na gravura encontrava-se submisso. Como uma proclamação: eis o que somos.
      Da cintura do anjo pendem chaves. Aceno de segredos guardados, de fechaduras possíveis, porém inúteis. Ao contrário, o espaço nos oferece o acesso. Mas para criar barreiras maiores, para preservar casta a nudez das formas. Para não se abrir. Venham e percorram, pouco importa: permaneceremos infensos às chaves.
      Resta o silêncio de uma e de outra, resta à meditação, o sonho, habitante da cabeça do anjo, agora vivendo neste ar e nesta luz. Infiltremo-nos ali. Façamo-nos parte dele. Retomemos com calma a plenitude que se fazia emblema carregado do esmaecer. Retomemos não mais na ligação densa que vai dos olhos ao coração, mas numa percepção epidérmica, que leva em conta o momento do dia, a temperatura, o silêncio ou o barulho, para encontrar uma gravidade renovada, para dispor a alma numa estranha sintonia.

Jorge Coli



_MELANCHOLY
    The angel wihdraws within herself, renoucing flight. She gathers the instruments of knowledge, both concrete and abstract, about her. Incurable sorrow, lying at the root of all human knowledge, an isatiable thirst for the infinite; light, unwavering, yet limited, shines out of the unlimited darkness: the one who annouces it is a bat.
     A sheet of paper unites mysterious beings and objects. It provides the physical  conjuction so they can grow. Participation is inspired by the coherence of secret relashionships. Little does it matter that we know not the reason for this arrangement. E knoe that are united by enigma, the secret.
      Out of the Melancolia comes an idea. Inscribed figures and objects on a blank page are now projected into space on a disturbed scale. The idea becomes a physical experience. That universe which gyrated, united by graphic composition and silence of the senses, has expanded and encoutered new needs.
      There is the beauty of the objects and volume in space, a reserved, confidential beauty, the beauty of the unattainable. The beauty of the hammer that has expanded and transformed itself into a large entity, not usable, but densely ontological. The beauty of interrupted relationships and proven unity. The beauty of the new invention, the formula which engenders renewed mystery. A stark beaty without correspondence across the emptiness of a void.
      Concealment and revelation. An ocean streaked with black or a dog with a sheep’s head. Four hundred and eighty years of time. The ancient unity, with its visible or shield ties, exclude us. We can treasure it in our hearts, and it may even embody our feelings, but with its inexhorable coherence it is unique.
      The new shows up first in the false paradox of dissociation. Objects apparently free of matricial chains. But soon one perceives a different kind of gravitation chains. But soon one perceives a different kind of gravitation which can be penetrated, not only with one’s eyes. A gravitation which lets itself be penetrated, which lets itself  be traversed, but which does not permit incorporation. There would be disdain in the superb coldness, if we were taken into consideration. It is our human melancholy, but it has become inacessible through its own greatness, beyond our existence.
      Both form a single structure, immobile and insensitive to the concentration of thoughts. If the night is complete, if the light is minimal, melancholy is born from within these limits. In 1514, knowledge suffered from the awareness of its own being. But, in 1994, it is like a curiously stationary dawn, affirming, yet denying itself. Neither dark nor light, neither day nor night, neither present, past nor future. It provides another, renewed state, both concious and beyound consciouness.
      The composition remains simple, yet exhuberant, thanks to the position and expression of the main figure, which attracts and holds one’s gaze despite the accumulation of objects and symbols which the master artist has created. Now it spreads out freely into real and unexpected space below the wings of the angel. It has become light and airy, a situation which perturbs that which was limited in the carving. As in a proclamation: This is what we are.
      Keys hang from the waist of the angel. An invitation to hidden secrets, to possible yet useless locks. On the other hand, the space offers acces. But to create larger barriers, to maintain chaste the silence of the forms. Not to open. You can come and look; it doen’t matter, we remain on the other side of the keys.
      What is left in the silence of both; what is left is meditation, a dream dwelling in the angel’s head, now experiencing this air and this light. We gradually penetrate the scene. We become part of it. We calmy recover the completeness that represents a gradual weakening. We retrive it, no longer through the compact link which connects the eyes to the heart, but by means of a palpable perceptionwhich includes the time of dau and temperature, silence or noise, leading to a renewed gravitation and awakening the soul to a strange syntony.

Jorge Coli
Tradução de Linda Gentry El-Dash