Melancolias

Sólidas Melancolias

       A presente exposição póstuma apresenta um dos trabalhos mais importantes da vasta
produção do artista visual, arquiteto e professor Marco do Valle. Sua poética, ora
trabalhada para museus e galerias, ora para fora deles, é provocativa também
academicamente, espaço onde pretendeu, e, ainda pretende através das pesquisas
que agora suscita, discutir com as várias facetas do sistema da arte.
Da Melancolia I de Albrecht Dürer, símbolo de elevação da alma por meio da ligação
entre a razão, a ciência, a matemática, a divindade e a criação, esta mostra
compreende as melancolias de Marco do Valle – Melancolia 3 e Sólido de Melancolia I:
síntese da relação de Deus com o homem de cinco sentidos, abarcando portanto, um
recorte da trajetória deste artista que se debruçou aos estudos da simbologia da
gravura do artista renascentista e também ao esoterismo, aos símbolos maçônicos, ao
cosmo, à geometria e aos instrumentos medievais da carpintaria e da arquitetura para
realização deste trabalho. Em depoimento deixado por ele, feito no início de 1992,
Marco do Valle anuncia este projeto como uma obra inacabada que seria, portanto,
assim mantida.
Marco do Valle cria Melancolia 3, movendo-se entre os extremos da talha em madeira
da tradição escultórica às instalações com objetos inusitados como o negatoscópio e as
lâminas de raio x. A partir desta ação, o artista aprofunda-se nos estudos dos sólidos
geométricos e nos procedimentos da impressão em água-forte para realizar seu
trabalho subsequente – uma tradução, apesar de criativa, fidedigna às técnicas
utilizadas por Dürer.
Apesar de se tratar de um longo período da vida do artista (1992-2018), este trabalho
apresenta apenas uma das facetas da multiplicidade artística de Marco do Valle – o
que comprova seu comportamento sempre investigativo e contemporâneo, bem como
seu interesse em produzir reflexões do interior da arte contemporânea.
Esta exposição traz algumas peças que foram restauradas e outras reconstruídas. Das mostras
apresentadas na década de 1990, no MASP e no Salão Icarahy da Universidade Federal
Fluminense, são apresentados documentos, fotografias e registros. Dos trabalhos
recentes, nestes últimos dois anos, esboços e rascunhos do que se solidificou e
também do que viria se desdobrar entre arte e vida – suas outras melancolias:
pessoais, intelectuais e artísticas.

   Julyana Troya. 2018

Fotos por: Melissa Vendite