Multimédia (70 – 80)

MULTIMÉDIA (70 – 80)
_DEPOIMENTO DE MARCO DO VALLE
    …em 77, fiz um xerox sobre papel espelho e o trabalho na realidade estava voltado na discussão sobre uma paisagem da boca. Mas a apresentação do trabalho envolvia a poesia do objeto, porque era uma cartela, como as de supermercado. Nela estava localizado, xerocado, composto aquele formulário do dentista que tem todos os dentes, com palavra, com poesia e havia chicletes em alguns displays e o outro tinha uma incrustação que eu tenho na boca.
      Em 76, o Zanini organiza a exposição sobre Mario Zanini. Ele tinha um aparelho Sony de rolo, branco e preto, que o Museu tinha adquirido naquele ano. A Cacilda foi chamada e o Zanini dispôs daquele aparelho. Eu e o Paulo Laurentis começamos a fazer algumas experiências de vídeo no Museu. Dessas experiências, não chegamos a fazer propriamente um vídeo. Não existia edição para fazer o trabalho, então tudo tinha que ser improvisado, mais ou menos como no começo da televisão, uma telenovela sem tapes, sem cortes. Parava a câmera, dava interferência… As primeiras experiências que tive com vídeo foram muito interessantes na época…
      O vídeo, “A Performance da Santa”, foi feito no estúdio da ECA. Fiz um palco, com espelhos e uma lâmpada. Havia uma santa, uma Nossa Senhora Aparecida – uma imagem comum de gesso pintado -, eu tinha um cordão e foi tocado um bolero e aí fiquei representando com a Santa, girando a imagem, e ela dança esse bolero. Tecnicamente o video ficou perfeito, só que nós tivemos um problema na passagem do vídeo para a fita, não havia Betamax e VHS na praça. Como não havia forma de fazer a passagem direta, esse video acabou sendo tirado do próprio televisor, e a qualidade ficou prejudicada, mas ainda sobrevive a idéia da imagem…
      …Interesso-me muito pelos vídeos, mas o acesso a esse equipamentos estão na realidade muito distante e agora com meu trabalho na UNICAMP tenho novamente a oportunidade de mexer com vídeos…
      …Acho que (o vídeo) é um recurso que a arte ainda vai utilizar e muito; isso é apenas um começo de trabalho, mas o grande problema é o acesso do artista ao equipamento que sempre vai estar em questão…
      …O artista deve ter várias liberdades, entre elas não ser especificamente um escultor, ser um pintor, ser um cara que faz xerox. O que existe como preocupação fundamental no trabalho e que ele tenha uma discussão, quer dizer, trave uma discussão que seja o mais abrangente possível e que discuta não só o que está sendo feito, tendo uma meta linguagem em relação ao próprio media com que ele trabalha. Então os meus trabalhos de media sempre nortearam essa discussão…

Marco do Valle
(Taquaritinga, SP, 1954)
In título do livro: “Arte novos meios/multimeios – Brasil 70/80.”
Depoimento do artista para o Instituto de Pesquisa da FAAP – Setor Arte. Jul, 1985