Poéticas Visuais (1977)

POÉTICAS VISUAIS (1977)
_AS NOVAS POSSIBILIDADES
      Um número importante de artistas atendeu a solicitação do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, comparecendo a esta exposição destinada a proporcionar um novo encontro dos que trabalham nos crescentes círculos internacionais da multimedia. O apoio procede de toda parte, da América Latina como dos países do leste europeu, do Estados Unidos como da Europa do oeste e a participação de convidados brasileiros é também significativa. Foram poucos os que interpretando “Poéticas” no sentido estético restrito da palavra ou confundindo-a com a problemática específica da “Poesia Visual”, deixaram de enviar sua colaboração. O intercâmbio do MAC como os artistas da ampla área da comunicação alternativa no mundo tem crescido sem desfalecimentos em vários anos, constituindo uma experiência que possui raros exemplos similares ou próximos em todo o hemisfério, sendo também uma demonstração de confiança na ação deste museu universitário.
      Visando um recenceamento da atividade de artistas e organizações de artistas que se comunicam predominantemente atraves de circuitos inter-individuais ou cujo trabalho – embora exceções – tem poucas possibilidades de extravasar ambientes dos mais restritos, “Poéticas Visuais” concentra-se, portanto, nos múltiplos media que se valem, alternada ou simultaneamente, da imagem como palavra. A mostra oferece vasta cobertura dos recursos tecnológicos hoje manipulados, instrui sobre a variedade das pesquisas no campo da intersemioticidade, revela novas investigações estruturais da palavra e da imagem, confronta, em suma a criatividade desta teorização/prática não submetida aos condicionamentos da obra tradicional. Entre os muitos veículos untilizados, é decisiva, a presença de publicações, não raro contendo ricas antologias. O livre-de-artista, em particular, constitui-se num dos dados maiores da manifestação. Ao lado de figuras das mais relevantes do cenário mundial, acham-se desconhecidos por vezes incluídos pelos próprios artistas diretamente convidados. As evidências de dispersão no conjunto não impedem a observação da atuação de diversificadas coordenadas de pesquisa. A dispersão de fato existe mas deve ser considerada um fato importante e inevitável deste fenômeno ainda novo que caracteriza a década e que ao mesmo tempo aponta decididamente para o futuro.
      “Poéticas Visuais” terá um aspecto insólito. O público poderá obter exemplares em xerox da maioria dos documentos exibidos, o que configurará também como uma exposição portátil.

São Paulo, Agosto de 1977.
Walter Zanini
Diretor do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.

_THE NEW POSSIBILITIES
      A considerable numbers of artists responded to the Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo’s invitationk putting in an appearance at this exhibition whose purpose ist to offer the opportunity for those who work in the ever widening international circles of multimediea to get together. This support commes from all over, from Latin America as well as Eastern European countries, from the United States as well as Western Europe, and the participation of Brazilian guests is also significant. Very few among those who, interpreting “Poetics” in the retricted asthetic sense of the word or confusing it with the especific problems of “Visual Poetry”, failed to send in their contribution. MAC’s interchange with artists from  the vast area of alternative communication in the world has grown without any loss of momentum over a number of years, constituting an experience that has few similar or close examples in the whole hemisphere. It is also demonstration of confidence in the action of this university museum.
     Looking afresh at the activity of artists and artist’s organisations that communicate predominhatly through inter-individual circuits or whose work-although there are exceptions – has little chance of going beyond the most restricted of enviroments “Visual Poetry” however concentrates on the many types of media which receives their validity either alternately or simultaneously, from the image as well as the word. The exhibition offerts vast coverage of techinical resources manipulated in this day and age, provides insight into the variety of research going into the field of intersemiotics, reveals fresh investigations into the structure of the word and the image, in short, confronts the creativity of this process of Theory/Practice that has not been subjected to the conditioning influences of the traditional work. Among the various vehicles used, the presence of publications, invariably containing rich anthologies, is decisive. The Artist’s Book, in particular, establishes iteself as one of the greatests offerings of the manifestations. Side by side with figures that are most relevant to the word-side scenario, can be found people who are virtually unknown, included by the artists who have been directly interested themselves. The overall evidence of the operation of diversified coordinates of reseach. This dispersion indeed exists but should be considered an important and inevitable outcome of this still young phenomenon which characterizes this decade and which at the same time decidedly points to the future.
      “Visual Poetry” will have one unusual aspect. The public of the documents exhibited, thereby also making it a portable exhibition.

São Paulo, August 1977
Walter Zanini
Director of the Museum of Contemporary Art of the University of São Paulo.

_POÉTICAS VISUAIS
      Paralela e alternadamente aos sistemas artísticos tradicionais, surge como ação anartística um tipo de fenômeno samizdat notadamente a partir da década passada. Este fenômeno, essencialmente fático na comunicação, propôe a informação como processo não como acumulação, agrupando-se seus produtores espontaneamente e por grupos de afinidade para a troca de intercâmbio de idéias e informações.
      A característica marcante desta produção é o predomínio da quantidade da criação sobre a qualidade, assim como a descentralização dos centros de produção e veiculação de arte. Esta manifestação, devida em parte à democratização dos meios de reprodução e produção e a facilidade conseqüente de transmitir mensagens de uns para outros, já estava prevista por Tzara e Haussmann na ação Dada na Alemanha.
      Se a arte-arte transformou-se no “Museu imaginário” pela reprodução (o que também fora previsto por Walter Benjamim), introduzindo no contexto da arte, com os meios, novas formas de operar; estes aspectos são modificadores não só da visão de mundo anterior mas da própria “leitura da arte, sincrônica e diacrônicamente.
      Esta atividade, atuante dentro dos moldes da sociedade de consumo a um nível estrutural, issto é, consciente dos meios de operar, de produzir, e veicular a arte na sociedade industrial, torna-se crítica em relação à produção tradicional e pré-industrial.
      A morte da arte, que aparece historicamente como produto de uma reflexão sobre a mesma, pode ser vista, hoje, como abandono dos suportes tradicionais e sobretudo como extravasamento e deslocamento das funções das mensagens jackobsonianas, na medida em que a função poética (estética) deixa de ser prioritariamente privilegiada.
      A passagem do mundo das coisas para o mundo dos signos caracteriza esta produção. O universo dos signos oferece uma variedade maior que a dos objetos e um custo mínimo, daí poder-se caracterizar esta situação intersemiótica, na medida em que as mensagens intervém signos de diversas fontes.
      Com o aparecimento de outros meios, no contexto da arte, os mesmos da difusão de massa e com o seu uso simultâneo, destaca-se a importância de um substrato material aos signos; a reprodução gráfica, o livro, a foto, o filme, etc; caracterizam esta situação como intermédia.
      A interdisciplinaridade vem dada pela procura de apoio em outras ciências humanas contíguas à semiótica e à semiologia, e pelo uso de noções e modelos operativos destas ciências, relacionados diretamente aos novos métodos de elaboração e registro.
      A intersemioticidade, intermediação e interdisciplinaridade que permeiam estas linguagens são muitas vezes responsáveis por situações-limite, nas quais a demarcação de um trabalho como “artístico”, dá-se apenas por sua inclusão num contexto de arte.
      Um outro aspecto é o paralelismo com a linguagem da propaganda, que tem seu apoio na retórica da imagem e do verbo; se, na propaganda, o que se oferece são produtos, seviços e idéias, nestas manifestações, em muitos casos, o que se oferece (através de uma linguagem ilustrativa, retórica e didática), são ideologias e formas de ver o mundo ou ainda de transmitir conhecimentos sobre este mundo.
      O uso de línguas, linguagens e ideoletos faz que a condição mais importante seja a da comunicação; procurando seus autores dizer ao mundo o que pensam e de que forma estão inseridos nele, dentro de um projeto (utópico) de arte como liberdade, ou melhor libertária.

Júlio Plaza

_VISUAL POEMS
      Especially over the past decade, a type of samizdat phenomenon running along paralell and alternative lines to the tradicional systems of art, has come into existence as an anartistic movement. This phenomenom, which is particularly pronounced in the area of communication, proposes that information should be processed rather than accumulated, in such a way that those responsible for its production get together as a spontaneous act and in groups of similar persuasion to swap and exchange ideas and items of information.
      The outstanding characterístic of this production is the predominance of quantitative creation over the qualitative alongside the decentralization of the centres of production and dissemination of art. This trend, due in part to the democratisation of both methods of repro and production, and the consequent ease in transmitting messages to one another, was already foreseen by Tzara and Hausmann in the German Dada movemente. If art-art was transformed into an”Imaginary Museum” with the advent of four colour reproduction, this other facet of art works directly with these reproduction methods (this too, was anticipated by Walter Benjamin), introducing, by these methods, new ways of operating within the context of art: these ways have a modifying influence no only on the former vision of the world but also on the “reading” of art itself, looked at both synchronically and diachronially.
      This type of activity operating on a structural level within the confines of the consumer society, that is, concious of the methods to operat, produce and distribute art within industrial society, is assuming a critical stand point with respect to tradicional and pre-industrial means of production.
      The death of art, which historically, appears as a product of a reflection on the topic itself, cam nowadys been as an abandonment of the traditional supports and above all an emptying and dislocation of the functions of Jackobsonian messages, in so far as the poetic (aesthetic) function caeses to be privileged as a matter of priority.
      This type of production is characterized by the passage from the world of things to the world of signs. The universe of signs offers greater variety than that of objects, and costs less. From this ist is possible to characterize this intersemiotic situation by the extent in which signs from a variety of sources intervene in the messages.
      With the appearance of other methods applied to the context of art, the same as those of mass communication and with its simultaneous use, the material substratum for the signs, stands in the forefront: graphic reproduction, the book, the photo, the film, etc. Characterize this situation in the role of intermedia.
      The interaction of disciplines has been achieved by the quest for support in other humansciences thar are contiguous to semiotics and semiology, and by the use of the notions and operational models of these sciences related directly to the new methods of elaboration and register.
      The intersemioticity, intermediation and interaction of disciplines that permeate these languages are more often than not responsible for the creation of border-line situations, in which the demarcation of a work as “artistic can just be made its inclusion within a context of art.
      Afurther aspect is its paralellism with the type of language use by advertising which gains all its support from the rhetoric of the image and the word; if, in advertising what is offered are products, services and ideas, in these manifestations, what is, in many cases, offered (through the use of illustrative, rhetorical and didactic types of language) are ideologies and ways of seeing the world or even of transmitting insights about this world.
      The use of language, types of language and ideolects means that the most important requirement is that of communication where its progenitors are all attempting to inform the world of what they think of it and how they are established in it, within a (utopian) project of art as liberty, or better still, art as being literating.

Julio Plaza.