REVISITA A ARTE E PENSA O PRESENTE (1984)

REVISITA A ARTE E PENSA O PRESENTE (1984)
_MARCO DO VALLE REVISITA A ARTE E PENSA O PRESENTE
      Os espaçados momentos da história em que os mestres constantemente voltam à luz não se prestam apenas a evocações solenes. Mesmo que o pretexto da revisitação de uma obra, como a de Vitor Brecheret, seja a comemoração dos noventa anos de seu nascimento, ela não é só pertinente a uma análise crítica tradicional, por ciência ou empatia. Serve também, e talvez principalmente, para se pensar o presente. E reconhecer assim os elos perdidos na turbulência que o separa da sua tradição.
      Não há nada de solene e convencional no “Projeto Releitura”, com o qual a Pinacoteca do Estado quer, desta vez, homenagear o grande mestre da escultura moderna. Mas também não há ali nenhum radicalismo iconoclasta. O que se tem no saguão do velho prédio é um trabalho analítico brilhante de Marco do Valle – artista jovem que já anda bem à frente dos conceitos tradicionais de “escultor” – e que demonstra, isso sim, um agudo sentido de síntese histórica e estética.
      A interpretação da famosa La Porteuse de Parfum, de Brecheret, o grande nu feminino que carrega um pote ovalado no mais autêntico estilo art déco, é um ensaio solidário, humorado e fraterno, que se coloca de maneira paralela à criação do começo do século. Rejeitando o pedestal e a imagem narrativa tradicional, Marco do Valle depositou no chão uma réplica negra do objeto de atenção da escultura de Brecheret, ou seja, o pote de perfume. Um objeto que ele não apenas tirou do contexto, mas adotou literalmente da função sugerida originalmente pelo artista de Viterbo, autor do mais forte ponto de referência da cidade, o Monumento às Bandeiras.
       O trabalho do Marco do Valle dista do minimalismo da mesma forma que a escultura de Brecheret está longe do cubismo, futurismo e construtivismo, tendências contemporâneas de sua época – o estilo é seu sinal de identificação, existência e embate. A sua luta, a despeito dos anos que a separam, é a mesma, diante do radicalismo, de um lado, e do tradicionalismo, de outro.
      Em Marco do Valle, o estilo dos anos 20 dá lugar à linguagem dos anos 70 e 80 e a asserção nasce da analogia: um tubo dourado sai do pote, é a “materialização” do perfume que se evapora e, ao mesmo tempo, é o duto real de evaporação (por eletricidade) da essência. O Saguão da Pinacoteca rescende, então, a Tabu, o aroma da época.
      Aqui, a ambivalência não está, como poderia parecer, na discussão que a alegoria geralmente provoca entre “aparência” e “realidade”. Ela está mesmo é no lado teórico e físico da obra. O trabalho de Marco do Valle é, simultaneamente, um discurso estético e um estado de fato. Quer dizer, destrincha os mecanismos estéticos expressionistas rodinianos e mestrovicianos de Brecheret, enfatizando a ruptura do contemporâneo com o moderno, e apresentam os incontestáveis correlativos físicos a que levam essas soluções (como a eletricidade, calor, exalação química etc).
      A arte-sobre-arte, portanto, não é apenas um método comparativo entre o processo artístico contemporâneo e o do passado.  Basicamente, afinal, a arte trata sempre da arte e de sua história e – como demonstra esse diálogo com Brecheret – é uma progressão cumulativa daquilo que veio antes. Robert Motherwell, o célebre pintor norte-americano, costuma sublinhar a importância da reciclagem das imagens existentes para o conhecimento mútuo da linguagem. “Todo artista inteligente”, diz ele, “carrega a cultura geral da arte em sua cabeça. Este é o seu tema real, a partir do qual tudo o que ele cria é, ao mesmo tempo, uma homenagem e uma crítica.”

Sheila Leiner                                                                                                                                  
1984