TALISMÃ (1987)

TALISMÃ (1987)
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     O realismo espontâneo de nossa percepção – que alguém chamou, certa vez, de fé perceptiva – nos faz crer que o mundo é aquilo que vemos, e que vemos aquilo que é e tal como é. Envolvida no é de invisível, a fé perceptiva crê-se banhada na mais pura visibilidade. Vemos, afinal, porque deixamos de ver. Eis porque a obra de arte plástica celebra apenas um enigma: o da visibilidade secreta do mundo.
      A fé perceptiva, crença mágica nas coisas, conduz, ainda que não o saiba, à crença de que a obra de arte plástica é uma representação do real. Tão arraigada é essa suposição que se encontra implícita quando falamos em arte “abstrata” para designar uma arte que, não sendo figurativa, não seria representadora, definindo-se, portanto, menos que efetivamente é e mais pelo que supõe que não seja.. No entanto, desde a crítica platônica à estatuária grega (que “deformaria” a forma dos corpos esculpidos para produzir a ilusão de um olhar representador), até os escritos dos artistas da Renascença sobre a geometria da perspectiva artificial (e o termo “artificial” deveria servir-nos de alerta), nada mais longe da obra de arte do que a representação. Quando as artes plásticas contemporâneas romperam com os cânones classistas, em geral, não romperam com a representação que nunca houve – mas com maneiras de ver e fazer, com o que julgaram ser os liames que atavam excessivamente a obra de arte à fé perceptiva inconsciente de si. Ma, em qualquer momento de sua história, o que obra de arte faz (ainda que seu resultado pareça mimético) é fazer aparecer no mundo as operações de ver o visível: cor, volume, textura, movimento, profundidade, concentração e dispersão do espaço-tempo. Ciência secreta.
      Geometria, astronomia, óptica, física, química, topologia, topografia, geografia – ciências manifestas do espaço-tempo – quando passam pelo olho e pela mão do artista sofrem transmutações, como se uma outra ciência, oculta, do corpo e do mundo, mais velha que nosso saber explícito sobre eles, viesse celebrar a materialidade do intelecto e a espiritualidade da matéria. É assim a escultura de Marco do Valle.
      Intelecto manifesto, matéria trabalhada, a escultura não se separa do mundo: não repousa sobre um pedestal, mas pousa docemente sobre a terra. Não nos oferece a imagem de outras coisas, mas é plenamente coisa. Não se confunde com a coisa natural, mas é artefato humano. Por sua matéria, por sua forma, por sua posição é meditação cósmica. Eixo da terra, irônico pêndulo, ferreamente submisso à gravitação universal, vetor astronômico, ferruginosa árvore impossivelmente implantada sobre o verde, esguia nave, mensagem estelar, mediação entre o terrestre e o celeste. Talismã. Figura do mundo.

Marilena Chauí.
(Feito para obra: “Eixo Paralelo ao da Rotação da Terra- 1987” – Escultura pública de Marco do Valle na UNICAMP.)